quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

IMPULSOS

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«Isto começou assim. Eu não tinha dito nada. Nada. Foi o Artur Ganate quem me fez falar. Artur, estudante de medicina, como eu, um camarada. Encontrámo-nos, por sinal, na Praça de Clichy. Depois do almoço. Quer-me falar. Escuto-o. «Não fiquemos cá fora! – diz-me. – Entremos!» E pronto, entro com ele. «É que esta esplanada, sabes, é para gente de bem! Vamos por aqui!» Nesse momento reparamos ainda que as ruas estão desertas por causa do calor. Nem um carro, nada. Quando faz muito frio também não se vê ninguém nas ruas. Fora ele próprio, lembro-me bem, a dizer a tal respeito: «Os habitantes de Parias dão sempre a impressão de estarem ocupados, mas na verdade passeiam de manhã à noite; a prova disso é que logo que o tempo não está bom para passear, muito frio ou muito quente, ninguém mais os vê, todos eles recolhidos a tomarem cafés-creme ou cervejas. É como te digo. O século da velocidade! – afirmam. Onde está ela? Grandes transformações! – anunciam. Onde? Na realidade nada mudou. Continuam todos a admirar-se mutuamente e pronto. E também isto não é novo. As palavras, e assim mesmo não muito, é que mudaram! Duas ou três aqui e ali, insignificantes…» Então, muito orgulhosos por termos feito repicar estas úteis verdades, ali continuámos sentados e encantados a olhar as mulheres, dentro do café.

Depois, a conversa recaiu sobre o presidente Poincaré que inaugurava, precisamente naquela manhã, uma exposição de cãezinhos; e então, apontando com o dedo no Temps onde aquilo estava escrito: – olha, aqui tens um grande jornal, o Temps! – seringa-me Artur Ganate a propósito. – Não existe outro como ele para defender a raça francesa! – E bem precisa disso, a raça francesa, pois é coisa que nem existe! – respondi eu, taco a taco, para mostrar que estava documentado.

– Qual quê? Existe sim e que bela raça! – insistia ele. – É por sinal a mais bela raça do mundo e bem corno será quem o desdisser! – E ei-lo que desata a berrar comigo. Aguentei firme, é claro.

– Não é verdade! A raça, aquilo a que tu chamas raça, é apenas este grande amontoado de miseráveis como eu, remelosos, cheios de pulgas, tiritantes, que aqui vieram encalhar perseguidos pela fome, pela peste, pelos tumores e pelo frio, que aqui chegaram vencidos, dos quatro cantos do mundo. Não podiam ir mais longe por causa do mar. Isto é que é a França e são estes os franceses.

– Bardamu – disse ele em tom grave e um tanto triste –, os nossos pais não nos merecem isto, não digas mal deles!…

– Tens razão, Artur, nesse ponto tens razão. Rancorosos ou dóceis, violados, espoliados, estripados e sempre cobardolas, não nos merecem isto. É como dizes. Mas nós nunca mudamos! Nem de peúgas, nem de donos, nem de opiniões, ou fazemo-lo tão tarde que já não nos vale a pena. Nascemos fiéis e assim acabamos! Soldados gratuitos, heróis perante todos e macacos falantes (palavras que fazem doer), somos nós os predilectos do Rei Miséria. É ele quem nos possui! E se não recorremos à astúcia, aperta-nos… Temos-lhe os dedos à volta do pescoço, sempre, o que nos dificulta a fala, e devemos tomar cautela, não vá impedir-nos de comer… Por um nada estrangula-nos… Isto não é viver…

– Há o amor, Bardamu!

– Artur, o amor é o infinito posto à disposição de cãezinhos e eu tenho a minha dignidade! – respondo-lhe eu.

– Sabes o que penso de ti? És um anarquista e está tudo dito!

Sempre malevolozinho, já estão mesmo a ver, e tudo o quanto havia de mais avançado em opiniões.

– É como dizes, emproado, sou um anarquista! E a melhor prova disso será eu ter composto uma espécie de oração social vingadora da qual vais dizer-me já o que pensas: As Asas de Ouro, é o título!…

Recito-lhe:

Um deus que corta os minutos e os tostões, um deus desesperado, sensual, e grunhidor como um porco. Um porco com asas de ouro, que cai por todo o lado, de barriga para o ar e à cata de festinhas, é ele, é ele o nosso senhor. Amemo-nos.

– O teu trechozinho não se aguenta perante a realidade. Eu cá sou pela ordem estabelecida e não gosto de política. Além disso, no dia em que a pátria mandar que eu dê o meu sangue por ela, não me encontrará por certo a dormir e até estarei pronto a dar-lho imediatamente. – Eis o que me respondeu.

A guerra aproximava-se de nós sem que tivéssemos dado conta disso, e a minha cabeça também já não estava muito boa. Esta breve mas anunciada discussão tinha-me fatigado. Além disso, excitara-me ao ouvir que o criado quase me chamava avarento quando lhe dei a gorjeta. Enfim, reconciliei-me com Artur para acabar inteiramente com aquilo. Éramos da mesma opinião sobre quase tudo.

– É verdade, de um modo geral tens razão – concordei eu conciliador –, mas o facto é que nos encontramos todos sentados numa galera e remamos à força de músculo, não me venhas o contrário! Sentados sobre pregos e a dar o máximo! E que ganhamos nós com isso? Nada! Apenas vergastadas, misérias, balelas, não falando já nas velhacarias. «Nós trabalhamos!», dizem eles. E isso é que é o mais ignóbil de tudo, o trabalho deles. Estamos nós cá em baixo no porão, a bufar, malcheirosos, suando as estopinhas, e vê tu!, eles lá em cima no convés, ao fresco, esses tais senhores que não querem saber de nada, com belas damas rosadas e a tresandar de perfumes sobre os joelhos. Somos, pois, obrigados a subir ao tombadilho. Põem então os chapéus altos e tapam-nos logo a boca deste modo:

«Ah! seu monte de carcaças, não vêem que é a guerra?», dizem eles. Vamos ajustar contas com esses canalhas que vivem na pátria n.º 2 e fazer-lhes saltar os miolos! Vá! Vá! Temos a bordo tudo quanto é preciso! Berrem para aí, em coro, de vir tudo abaixo: «Viva a pátria n.º 1!» E que vos oiçam de longe! Quem berrar mais alto terá direito a uma medalha e ao rebuçado que é o próprio Nosso Senhor! Com mil diabos! E os que não quiserem morrer no mar poderão ir morrer a terra, onde isso se faz ainda mais depressa do que aqui!

– É exactamente assim! – aprovou Artur, na verdade bem mais fácil agora de convencer.

Foi então que mesmo ali à frente do café onde estávamos sentados começou a passar um regimento, com o coronel à frente, a cavalo, e por sinal tinha esse coronel um ar simpático e bastante folgazão! Senti logo um impulso de entusiasmo.

– Agora é que vou ver como a coisa é! – respondo ao Artur, e cá vou eu já a caminho de me alistar, e até em passo acelerado.

– Que grande besta me saíste, Fernando! – grita-me Artur, de volta, sem dúvida alguma envergonhado pelo efeito que o meu heroísmo produzia sobre toda aquela gente que nos olhava.

Chocou-me um pouco que ele encarasse a coisa daquela maneira, mas nem isso me demoveu. Já os acompanhava. «Aqui estou e aqui fico», dizia a mim próprio.

– Havemos de ver isso, parvalhão! – tive eu ainda tempo de lhe gritar antes que virasse a esquina com o regimento, atrás do coronel e da sua música. Isto passou-se exactamente assim.

Depois marchámos durante muito tempo. Havia ruas e mais ruas e também, dentro das casas, os civis e as suas mulheres que nos gritavam encorajamentos, que nos atiravam flores, das esplanadas, das estações e das igrejas repletas. Quantos patriotas por ali havia! Mas depois passou a haver menos patriotas… A chuva começou a cair, e então cada vez menos e por fim nenhum encorajamento, nem um só, pelo caminho.

E não é que estávamos já sozinhos? Uns atrás dos outros? A música parou. «Em resumo – disse par mim próprio quando vi como a coisa estava a correr –, isto já não tem graça! É mesmo de voltar para trás!» Ia safar-me, porém demasiado tarde! Haviam tornado a fechar a porta de mansinho atrás de nós, civis. Fôramos apanhados que nem ratos.»
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Louis Ferdinand Céline,
Viagem ao Fim da Noite
   

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