sábado, 18 de dezembro de 2010

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Nos dias de hoje, se um homem como Chirico consentisse em revelar integralmente e, bem entendido, sem arte, o mais claro do que outrora o fez agir, disposto a entrar nos pormenores mais ínfimos e inquietantes, o passo que não faria avançar à exegese! Sem ele – que digo eu, apesar dele! –, recorrendo unicamente às suas telas dessa época e a um caderno manuscrito que tenho entre mãos, só imperfeitamente se pode tentar a reconstituição do universo que foi o seu até 1917. É profundamente lamentável a impossibilidade de preencher essa lacuna e descortinar plenamente tudo o que, em semelhante universo, vai contra a ordem do previsível e ergue uma nova escala das coisas. Nesse período, Chirico admitiu que só podia pintar surpreendido (surpreendido antes) por certas disposições dos objectos e que todo o enigma da revelação se resumia, para ele, nesta palavra: surpreendido. É certo que a obra resultante desta surpresa permanecia «ligada por laços muito estreitos àquilo que provocara o seu nascimento», mas apenas se lhe assemelhava «da maneira estranha como se parecem dois gémeos, ou melhor: a imagem em sonho de determinada pessoa e essa pessoa real. É, e ao mesmo tempo não é, a mesma pessoa; leve e misteriosa transfiguração lhe altera as feições».
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André Breton,
Nadja
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