domingo, 31 de outubro de 2010

DESCRIÇÃO DA PRAÇA DA REPÚBLICA PARA A AMADA QUE MORA NO INTERIOR

 .
 .

os lagos de tão rasos
não permitem afogamentos:
se temos fomes
não há que nos alimente
– os peixes
vivem
(de excrementos)

os pombos não nos pertencem
roubá-los será inútil por enquanto
e que valem os pombos para a fome de uma geração inteira?

sedentos
a sede aplacaremos com coca-cola
no bar mais próximo

algumas pontes o contacto estabelecem
entre o vazio e o vazio
sugerindo paisagens que não vivemos

ao meio-dia
se debruçarmos sobre as ferragens
esperando a volta para os estábulos de ar condicionado
nos chamarão de pederastas

estátuas há
que olham para as árvores
contemplando as estátuas

no grande parque infantil
de arame rodeado
crianças são treinadas
como cães de apartamento
a beber nas horas certas
urinar nos w.c.
sem sujar o uniforme

na parte mais baixa se repararmos
sem muita preocupação
agências de turismo aveludadas
casas bancárias de velhas tradições
restaurantes e cafés
lojas de créditos
rodeiam o que mais se salienta no local:

o mictório público
moralmente dividido
para homens e senhoras
não importa a condição
.
.
Orlando Parolini
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