sexta-feira, 3 de setembro de 2010

TENDO EM CONTA

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Quando ouço ou leio nas notícias os contornos da atitude francesa no seu território relativamente à expatriação dos ciganos, mais do que no acto em si, penso na influência exponencial de tamanhas medidas como esta, no contexto social, histórico e económico. O problema, de facto, e se tivermos em conta os valores que levantam, o meio onde inserem este tipo de medidas, não está no acto em si se tivermos também em conta tudo o que acarreta no sentido mais lato e generalista a palavra trabalho. Aliás, o problema, aqui, está mesmo no tendo em conta. Qualquer sociedade ocidental, do lado esquerdo ao lado direito do atlântico, condena em demasia todos aqueles que não querem trabalhar e sujam, por isso mesmo, o ambiente hermético e limpinho de todos aqueles que trabalham e vêem, mesmo assim, neste ainda curto início de século, o chão a fugir dos pés. Aqui, começa o grande paradoxo contextual. Numa época em que o trabalho significa cada vez mais uma regressão nos direitos, uma transformação de tudo aquilo que foi ganho de volta ao zero, tipo ao zero vírgula um, para não ser pessimista, esses mesmos medrosos, atentam contra todos aqueles que se recusam a trabalhar, que preferem viver na ressaca do desperdício e da boa vontade higienista dos outros, dos que estão inseridos na sociedade de pesos, e é isto um regresso às origens do costume, à intolerância sobre a forma de bode expiatório. Vejamos, por exemplo, João. Trabalha, tem um carro, vai ao ginásio, tem internet, ainda faz uns workshops, bebe umas cucas, vai comer fora quando pode, muitas ou poucas vezes e paga impostos. Paga ainda a casa, a luz, a água, e mais uma infinidade de coisas. Custa-lhe, como é óbvio, mesmo com tanto para se distrair, ou não, ver um gajo sujo na rua a pedir, ou um no café, ou no ginásio, que recebe, porque disse, o rendimento mínimo. Se for preciso, não gosta de chineses, acha que vieram para cá roubar o negócio aos nossos mas no entanto, talvez pela altura do natal, recorre às suas lojas para comprar umas merditas para aquele pessoal menos chegado, que merece prenda mas não merece suposto valor. Este tipo de gajo (podia ser uma gaja) é o típico: concorda plenamente com a decisão do estado francês e odeia ciganos porque nunca teve, tão pouco, coragem ou retórica própria para discordar deles. Normalmente, no que toca a intolerância, até concorda com tudo aquilo que tire ratos estrangeiros do seu país porque nunca percebeu tão pouco que, tal como acontece com os chineses, uma boa parte do que possui cresceu, para seu bem-estar, da mão-de-obra barata feita com patinhas de esgoto. Igual a ele, por essa Europa fora, mais pobre ou mais rico, pois até os miseráveis são influenciados e influenciáveis, há uns quantos como ele, independentemente do seu nível de educação e conhecimento. E é aqui, neste pequeno grande ponto, que eu discordo com a medida francesa tal como com a medida italiana de há uns tempos: tais atitudes, como esta, são como lume sobre um barril de pólvora, pretextos para ideias distorcidas da realidade ao alcance das mãos das pessoas, daqueles que se sentem cada vez mais trilhados pelo trabalho, sempre à espera das suas benditas férias, do grande descanso, com um suspiro de maldizer acerca do trabalho debaixo da língua pronto a ser cuspido. A verdade é que condenam quem lhes vem «roubar» o trabalho e quem não quer tão pouco fazer disso modo de vida. Baratas tontas que já não sabem tão pouco o que querem, tal é o pé que se aproxima. Mais uma vez, o que acontece é muito simples: os problemas são os mesmos só que cada vez mais complexos, uma equação sem final à vista e em crescente. Bem à medida do conhecimento financeiro que se começa a banalizar na sociedade, como alavanca de apoio e embalamento de medidas desumanas.  
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