terça-feira, 14 de setembro de 2010

LIÇÃO

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Tão inútil dizer. Quando se aproximava
da sala ia crescendo em tempestade
todo o seu corpo, a invulgar beleza
do rosto sem morada, os olhos sempre
fora do meu alcance. Outras palavras
quisera ter-lhe dito e acima de tudo
nada de literatura, mas cercava-nos
o espírito do sol, esse momento
em que a manhã leva todos os sonhos,
o prazer e a dor. Assim ficava
à espera de um milagre, apenas um
segredo que viesse ter connosco
pela primeira vez. Vá lá, então,
só quero o teu sorriso e, por favor,
nenhuma literatura - muito menos
ou muito mais, não sei bem, porque agora
vai ser a tua vez de me ensinares.
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Fernando Pinto do Amaral
Poesia Reunida 1990-2000

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