terça-feira, 28 de setembro de 2010

.
.

O homem que do deserto conhece o segredo não
pode envelhecer
Chegará a morte, rondará em volta da duna
e marchará.
O dia será severo, mas a noite
não alterará o olhar profundo desse
rosto que levanta moradas na paciência.
Com as suas mãos segurará a vida em temporada alta,
inacessível à desgraça.

O homem que do deserto não saqueia a lenda
não pode sofrer o insulto.
Será depositário de uma obscura memória
tecida de enigmas e de beleza.
Herdeiro do livro deixado pela noite.
Os ventos mantê-lo-ão humilde e orgulhoso
com o pé fora da derrota.

O homem que do deserto é castigo
dono de um projecto livre de sofrimento
habitará uma casa onde não entra a fome.
Talvez não tenha ódio, eterno no valor,
criança que atravessa o século com um anel de estrelas
dormindo no orgulho dos espinheiros, sobre
a linha branca, guardiã do céu.

O homem que do deserto é o relato,
livro da paixão e do perdão,
coração aberto, grande como o país e o tempo,
esse homem irá como um cavalo livre para fora do árido
e impenetrável.
Misturará as palavras com areia para abrir as portas
das cidades subterrâneas e das noites inexpugnáveis.
A liberdade terá o seu rosto, a sua voz e a sua loucura.
O deserto é um mal-entendido, um mal
leito para o sonho e para os sonhos, uma página
branca para a nostalgia.
Os beduínos estão na cidade, os camelos
na lenda e os nómadas nos circos da alma cansada.
.
.
Tahar Ben Jelloun
.

Sem comentários: