domingo, 15 de agosto de 2010

JARDIM PÚBLICO COM PERNAS PARTICULARES

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… e as meninas andam com as pernas despidas:
por que as utilizam
para andar?
Mentalmente repasso
ofícios convincentes
para elas – as pernas –
digamos: situações
mais úteis ao homem
que as olha
lentamente,
assobiando entre os dentes
uma canção recuperada
apenas
            desse ofício eu não gosto
no precipício do olvido.
Se bem se olha, bem se vê que todas
são belas: as que passam
levando para outro local
cabelos, vozes, seios,
olhos, gestos, sorrisos;
as que permanecem
cruzadas,
como ramos curvados pelo peso
da beleza cálida, caída
do doce abandono dos corpos sentados;
as esbeltas e grossas;
as suaves e polidas; as cobertas
de pêlo claro, tocadas pela graça
da luz, cor de mel, comestíveis
e apetitosas como frutas frescas;
e também – sobretudo – aquelas que demoram
o seu pesado trajecto até ao tornozelo
no curvo perfil que delimita
as pueris, alegres, inocentes,
irreflexivas, brancas panturrilhas.
Pensando melhor, dói olhá-las:
tanta graça dispersa, inacessível,
abandonada entre a primavera,
oprime o coração do comovido
espectador
que sente a humilhante queimadura
da renúncia,
e se maldiz em voz baixa,
e se apoia no portão do lago,
e olha a água,
e vê o seu próprio rosto,
e cospe distraído, enquanto segue
com os olhos os círculos
que traçam na tensa superfície
a sua solidão, o seu medo, a sua saliva.
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Ángel González

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