sexta-feira, 20 de agosto de 2010

FMM SINES 2010 (BATIDA "ALEGRIA")

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Contrariamos as horas
ouvindo eléctricos batuques
ligados umbilicalmente
aos nossos corpos. As tuas
companhias, uma delas tão bela
como o negrume da noite,

saltaram para o meu olhar
enquanto se desfaziam os volumes
em suor
e o movimento em harmonia
pós-global recheado de surpresas
etílicas, químicas,
e um ou outro tipo de droga
que desconhecíamos até então.

Descobrimos, também,
que com quem tu querias falar
era comigo, e eu contigo:
que o mar escondido depois
das luzes, das pessoas,
era desculpa, mote, para a naturalidade
das palavras engendradas

fluidamente em cima do joelho,
como ondas que se desfazem
no areal da consciência.
Confessaste-te da margem sul
e eu da margem sul do douro,
piada usada de alguém
que adivinhou o seu uso
em circunstâncias maiores, de
descoberta e encontro,

nesta constatação tardia e abrupta
disposta a iluminar
a beleza dos corredores obscurecidos
pela memória, embrulhada
nestes versos sinceros,
nesta permeabilização da humanidade
numa noite seguinte como esta

onde sou afinal capaz
de escrever, não sem alguma
dificuldade, o sentido que a tua voz
adquiriu contra todas as possibilidades
e expectativas, arruinando barreiras
através da geografia
da masculinidade da tua
cidade, substantivo feminino, plural

que se interpôs, agora, transformando-se
em saudade e em singular destino certo,
sem uma rua concreta onde cair.
O que te trouxe até ali
foi, pelo que percebi, um desejo imenso
e intuitivo, a certeza de que o mundo se faz
com interferência e ruído;
uma vida recheada de depressões como

confessaste, entregue a bichos desconhecidos
do passado e do presente
que originam, para além do bem,
todos os males territoriais do mundo,
a velha causa \ consequência.
A acreditar em alguma coisa
há que acreditar na presença humana,
na teia que se liga e desliga
filha de uma composição maior,

sem tão pouco olhar pelo teu corpo
nesta Europa, como bem disseste, decrépita
o começo de tudo o que não acabou;
com a certeza de que, de
ti, para além de linhas esquecidas
e uma camisola zebrada,
poderia guardar uma hora
de conversa e o desconhecimento
desinteressado do teu nome. Uma empatia
não-amorosa, estranha,
como nunca, alguma vez, senti.
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