segunda-feira, 30 de agosto de 2010

E.T.A HOFFMANN

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Anos depois (uns bons anos depois) lembro-me de um livro. Perdido entretanto pelo caminho, em circunstâncias suspeitas e duvidosas, voltei, a meio desse mesmo caminho, a arranjar um outro exemplar. A capa, engana; cor-de-rosa, de capa dura. Um pequeno trecho, numa fase de auto-queixume existencialista e amoroso, envolto numa névoa de esperança pulverizada pela desilusão e pelas vicissitudes geográficas da inevitabilidade, despertou-me a curiosidade como quem acorda um morto a meio da sua cerimónia fúnebre. «Chegara-se à conclusão unânime de que todas as manifestações reais da vida eram frequentemente muito mais maravilhosas e estranhas do que tudo aquilo que a fantasia mais criativa alguma vez se atrevesse a inventar.» E era esse, de facto, o sentimento fantástico que me assolava na altura, essa necessidade de extrapolar a realidade quando tudo parece cair, polarizado pelo desgosto de aceitar a continuidade dos dias. (Sentado à chinês, sobre a arca frigorífica na marquise da minha cozinha, dedilhava, com os olhos, linhas e linhas na finalidade da noite.) Hoje, não sabendo ao certo quantos anos passaram, senti, como disse, a obrigação de procurar esse livro, e embora não encontre uma razão razoável para tal busca sobre o passado quando o presente ainda guarda uma prova, uma nova prova que justifica o desenrolar do tempo com provas semelhantes mas numericamente diferentes, acabei por perceber, contentado, que nada é assim tão importante quando não encontramos certezas. Poderia escrever hoje é domingo e estas coisas ocorrem-nos, mas seria mentira. Dizer que nesta noite, sozinho como tanto gosto, poder-me-ia ocorrer outra ideia ou lembrança bizarra, entregue aos labirintos consecutivos e repetentes da memória, co-ajudado pelo silêncio que tanto jeito tem para este tipo de intromissões que não lhe dizem respeito, mas escreva o que escrever (e a piada talvez esteja aí) nada esbaterá esta incompreensão. As lembranças, quando muito, são circuitos fechados num dado espaço que se alimenta de pormenores do presente. Tentar compreender a sua dinâmica, portanto, implica uma queda estúpida capaz de arranhar a beleza de coisas simples e complexas como esta. O que é certo, no meio disto tudo, mais uma vez, não interessa. Confirmei então, depois de procurar parágrafo a paragrafo, conto por conto, o que me tinha levado a gostar tanto daquele livro. Quando descobri o porquê (um dos seus contos) tudo fez muito mais sentido: O Homem da Areia.
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