domingo, 20 de junho de 2010

PARQUE COM ZOOLÓGICO

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Aqui tudo sorri. (Perdão:
o hipopótamo fêmea do zoo pensa e boceja.)
Nesta breve estância soalheira,
protegida
da pressa, do fumo e dos ruídos
por maciços de hortênsias,
por muros de aligustre,
por relhas de folhagem,
tal como uma paródia do humano genuíno
na sua versão original, antes
que incorresse em pena de desterro
por indevida apropriação de fruta.
«Proibido colher flores».
                                         Não é quase
como então – tal como nos contam?
E a mão indefesa da menina
que leva sem medo pão e ternura
ao focinho húmido do urso,
não evoca
aquela desejável
promiscuidade,
a bonita convivência
de tigres e gazelas, girafas
e leões,
abutres, serpentes, cisnes e escorpiões,
conseguida
debaixo do penetrante olhar
do mais estranho bípede,
da mais assombrosa
argila reflexiva e semi-movente?

Também descansa tudo,
aqui. Regressam os lenços
com frequência
a enxugar o suor que brota das frontes,
mas essa mancha húmida
                                          (que também desbota
as roupas de mulher pelas axilas,
esquecida ali a sombra e o mistério
de uma crescente meia-lua amarga)
não surge do esforço necessário
para ganhar o pão:
                                 melhor as causam
a reverberação do mês de Junho,
o seu deslumbrante peso,
o ofuscante desmaio das suas luzes
que pendem (áureas, verdes e frisadas
pela cálida brisa) das densas
ramas dos ciprestes e dos plátanos.

Vegetação e ócio, cachorros
de crocodilo e de contribuinte:
eis a Criação
                     Municipal.
A edilidade ingénua
dispôs esses resplandecentes frisos
e colocou no seu centro
o cidadão recenseado
para júbilo, e glória, e deleite mútuos.
E assim veio a ser rainha – se não arrogante,
ao menos comedida e respeitável –
de ter criado o homem, os domingos.

Às vezes, entre horas,
em qualquer dia útil
também regressa e avalia,
incógnito e fugaz, com leves passos
o seu domínio,
comprova a ordem de todos os seus bens
(bancos, salgueiros, pombas, fontes, pétalas,
estátuas, mictórios, borboletas),
deixa
o seu luminoso ceptro entre os ramos,
e regressa ao seu sítio de coisa entre as coisas,
dirigido por rótulos e luzes,
acossado por buzinas e sirenes,
cerrada a esperança, o medo aberto,
e o desejo também, e a nostalgia
de todas as mentiras que criou em criança…
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Ángel González

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