domingo, 30 de maio de 2010

A QUEDA

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«Querida Jolie,

Aqui vai todo o dinheiro que te hei-de mandar durante um longo período. Estou a preparar-me para consolidar a minha mente e internar-me numa floresta para viver de bolotas, e trato agora de reduzir o que resta da minha vida ao estritamente manejável. Tive de caminhar sobre os espinhos de obstáculos medonhos para te conseguir este dinheiro. Vivi aventuras horripilantes. Essencialmente, fui derrubado e castigado. Moralmente, falhei e fui humilhado. Felizmente, rasguei caminho e triunfei. Seguem-se os detalhes.

Nos últimos dois meses, desde que o banco começou a tirar a sua fatia de usurário de tudo o que deposito a pretexto de reduzir infimamente as vastas e insolúveis somas que lhes devo, engraxei, ameacei e amaciei os inquilinos para que pagassem uma porção da renda em dinheiro. Na quarta-feira passada tinha comigo quinhentos e oitenta dólares exactos, embrulhados no bolso de fora do meu casaco azul (já que o bolso de dentro, mais seguro, está roto e solto). Ia a pé pela 4th Street, no passeio do lado norte, a assobiar e a balançar os braços, e a dar pequenos saltos por cima dos buracos do pavimento, que eram muitos. Os meus olhos lançavam-se para um lado e para o outro, sem que houvesse em toda a rua uma cena saliente que os prendesse muito tempo, até que pousaram num veículo à espera num semáforo, com o fumo a tossir do escape numa nuvem de mau cheiro. Apesar de me aproximar por trás, e de assim não ter uma visão clara e informada do objecto no seu todo, várias marcas e sinais disseram-me que era o mesmo veículo que já tinha visto descrito num conto de um dos meus contribuidores. O motor do meu cérebro fez um pequeno ruído ao engrenar e disse-me que a espécie de maçaneta visível através da sujidade do espelho do retrovisor do veículo era, com toda a probabilidade, a detestável cabeça desse mesmo contribuidor. Chama-se a isto raciocinar o todo pela parte. Demora um segundo. Não estando à espera de ver o dito contribuidor naquele sítio, e, claro, não estando ele igualmente à minha espera, tirei vantagem destas duas desesperanças combinadas para me agachar bastante e pendurar-me na traseira da carrinha de carga (pois o veículo em questão era uma carrinha de carga), antes que o semáforo pudesse voltar a mandar a sua permissiva luz verde. A minha intenção era saltar para dentro da caixa de carga da carrinha - como uma pantera, dir-se-ia - e depois avançar rapidamente até à parte de trás da cabina. Uma vez lá chegado - o cérebro, apoiado por um coração a bombear vigoroso, engrenava agora a uma velocidade tremenda -, o plano era agarrar com a minha mão direita a base cromada de uma enorme antena de rádio que vi a sair do tejadilho, enquanto o meu braço esquerdo serpenteava, ágil, em redor da esquina da cabina e enfiava-se pela janela aberta, no lugar do condutor. Tinha sido uma boa surpresa, se tivesse funcionado. Infelizmente, no preciso instante em que me lancei pelo ar na direcção da caixa da carrinha, ela desapareceu debaixo de mim. O semáforo saltou subitamente para verde (não há nenhum amarelo de transição para o arranque, naquela via) e a carrinha pulou para diante com um enorme guincho e fumaceira dos pneus. Podia ter perdido o equilíbrio nessa altura. Se não o perdi, pelo menos logo ali, e ainda consegui largar em rápida perseguição, foi só por pura sorte. Creio que fui a sacudir os braços e aos gritos, e estava mesmo a ganhar terreno à carrinha, entretanto presa no trânsito, quando fui traído pela sola de um sapato. Devia ter mencionado isto logo de início: parte do meu sapato esquerdo já andava a soltar a sua ligação às outras partes havia vários dias, e fazia um barulho de estalo quando eu andava. Era um barulho a seu modo agradável, e eu já tinha aprendido a bater o pé de maneira a ampliar o estalo. Era um belo chamariz, no supermercado. Claro que nunca me ocorreram os perigos que isto traria, no caso de eu precisar de acelerar o ritmo para além dum passo coxo, como tive de fazer para perseguir a carrinha. Graças a isso, a situação não se desenrolou como eu esperava, quando comecei a dar aos velhos pistões. Cortando curta a longa história, caí - catastroficamente, abismalmente, no duro. Rasguei ambos os joelhos das calças, raspei tanto a palma da mão esquerda que me ardeu que nem fogo durante horas, a largar gotículas de sangue dos traços paralelos. E quase parti um dedo.

E ali fiquei eu, estendido no meio de um cruzamento movimentado, o trânsito a travar em todas as direcções. Espantosamente, ninguém saltou em meu socorro, nem tão pouco chegou calmamente. O que pensaram não posso saber. Se calhar pensaram em saltar e depois andar, mas no final não se deram ao trabalho. Conseguia ver cabeças a espreitarem de janelas de carros ao longo da fila, a esticarem-se para ver melhor, e não eram só cabeças de miúdos, mas, mesmo assim, ninguém saiu. Consegui içar-me para a posição de sentado, e estava em comunicação muito intensa com os meus joelhos quando a buzina de um carro soou bem ao fundo da fila, uma só buzinadela, pouco empenhada, feita pela pressão de uma palma indecisa e frouxa. Olhei. Sou capaz de ter mandado um mau-olhado. Tenho a certeza de que fiz uma careta (começava a aperceber-me da dor nas mãos e nos joelhos). Percebi que tinha perdido um sapato, o bandido com a sola de estalo. Tentei calçá-lo, sem sucesso. Teria sido preciso soltar o cordão, que aperto sempre com duplo nó. Mal conseguia usar os dedos, paralizados que estavam pelo formigueiro. Entretanto, não houve mais buzinas. O burburinho do silêncio paciente era absolutamente enervante. Rodopiei a cabeça por todos os pontos da bússola e não vi uma mão de homem estendida para ajudar, nem um sorriso angélico de mulher lançou o seu raio de sol sobre mim. Não vi senão os risos sardónicos das grelhas e dos pára-choques dos automóveis, e o pasmo vazio dos seus enormes olhos de vidro. Rastejei - sim, rastejei! - a quatro patas, para fora da estrada, sobre as minhas mãos e os joelhos ensanguentados. Desfaleci num montículo da berma relvada. Apoiei as costas no poste de um sinal de trânsito e fiquei a ver o tráfego a retomar o seu ritmo desejado. Pensei em como a indiferença que está no cerne das máquinas migra para as almas daqueles que as comandam. A seguir tirei o sapato que restava e fui para casa de meias.»

Sam Savage, em
O Grito da Preguiça   
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