sábado, 15 de maio de 2010

ADOECER



«Mas a história de Lizzie é a história de uma barbárie e dos seus executores. Acaba mal e não começa bem. É como se a cidade publicasse um edital para pôr a saque uma mulher que aceitava o trabalho de modelo. Uma festividade de caçada enchia as tardes dos pintores e do seu círculo. As raparigas conheciam bem as doses do alarme e da cedência, moviam-se num jogo imaginado milhares de anos atrás pelos predadores. O pensamento social esculpira-as, desbastara-as na sua substância, até lhes dar essa conformação daquele que corre pouco, o que se agacha sobre a erva, sem sombra para morrer. Porque existia só uma maneira de minorar o gozo masculino e essa maneira era entregar-se cedo.»

Hélia Correia 
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