terça-feira, 27 de abril de 2010

INTRODUÇÃO ÀS FÁBULAS PARA ANIMAIS

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Durante muitos séculos
a prática foi esta:
instruir o homem com histórias
na alçada de animais de voz douta,
de gesto solene ou astutas tretas,
obstinados na maldade e na ganância
ou néscios como o ser que criticavam.
A humanidade deve-lhes
parte da sua virtude e sapiência
a burros e leões, ratas, corvos,
raposas, ursos, cigarras e outros bichos
que servirão de exemplo e moral,
de estímulo também e de lição
nas alheias testas animais,
ao imaginativo e subtil grego,
ao severo romano, ao refinado
europeu,
ao homem ocidental, sem ir mais longe.
Hoje quero – e perdoa-me o atrevimento –
compensar tantos bens recebidos
do grémio irracional
descrevendo algum acto sintomático,
alguma matiz da conduta humana
que acaso possa ser educativa
para as aves e para os peixes,
para os cnidários e mamíferos,
dirigindo o mesmo às amebas
mais simples
como a qualquer espécie vertebrada.
Já a nossa sociedade está madura,
já o homem deixou para trás a adolescência
e na sua velhice ocidental bem pode
servir de exemplo ao cão
para que o cão seja
mais cão,
e a raposa mais traidora,
e o leão mais feroz e sanguinário,
e o burro como dizem que é,
e o boi mais inibido e menos touro.
A toda a besta que pretenda
realizar-se como tal
                                 – já é
com efeitos belicistas ou pacíficos,
com vistas financeiras ou teológicas,
ou por amor à arte simplesmente 
não cessarei de lhe dar este conselho:
que observe o homo sapiens, e que aprenda.
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Ángel González
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