domingo, 18 de abril de 2010

EXPRESSÃO

 .
 .
Ando a ler há várias semanasa poesia dos mais novos.
A mãe não os compreende
e odeiam o Papá, o ilustre alcoólico.
Escrevem com negra ironia
sobre esgotamentos, hospitais psiquiátricos
e tentativas de suicídio, de que nem sempre
parecem possuir experiência directa.
É uma poesia muito poética.

Visito o Museu de Arte
e dou por mim à procura de qualquer coisa,
sem saber ao certo o quê.
Encontro-a, reconheço-a,
vendo-a pela primeira vez.
Um «retábulo italiano antigo».
A Virgem, a contorno, seus lábios
um laço rubro estranhamente moderno,
ao colo um Menino pequeno como uma boneca.
Este tem o rosto sabedor de um adulto
e uma precoce madeixa em caracol
sobre a testa lisa de bebé. Ela
é maciça e quase simétrica.
Ele não se debate, tão-pouco é solene.
A imagem enfastia, como água
após demasiado bolo de aniversário.
Solidamente ali, mãe e filho
olham em frente, dois pares de olhos idênticos
vazios de expressão.

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 .
Thom Gunn
 .
[roubado de um lugar mesmo aqui à direita]
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