quarta-feira, 7 de abril de 2010

CIDADES SEM SONO

 .
 .
(NOCTURNO DA BROOKLYN BRIDGE)



Não dorme ninguém pelo céu. Ninguém, ninguém.
Não dorme ninguém.
As criaturas da lua cheiram e espreitam sobre os camarotes.
Vêm iguanas vivas morder os homens que não sonham
e o que foge com o coração partido encontrará nas esquinas
o incrível crocodilo quieto debaixo do silencioso protesto das estrelas.

Não dorme ninguém pelo mundo. Ninguém, ninguém.
Não dorme ninguém.
Há um morto no cemitério mais distante
que se queixa há três anos
porque tem uma paisagem seca na rótula;
e o menino que enterraram esta manhã chorava tanto
que houve a necessidade de chamar os pais para que se calasse.

Não é sonho a vida. Alerta! Alerta! Alerta!
Caímos pelas escadas para comer a terra húmida
ou subimos para a orla da neve com o coro de dálias mortas.
Mas não há esquecimento, nem sonho:
carne viva. Os beijos atam as bocas
num emaranhado de veias recentes
e ao que lhe dói a sua dor doerá sempre
e o que teme a morte levá-la-á sobre os seus ombros.

Um dia
os cavalos viverão nas tabernas
e as formigas furiosas
atacarão os céus amarelos que se refugiam nos olhos das vacas.
Outro dia
veremos a ressurreição das borboletas dissecadas
e mesmo andando por uma paisagem de esponjas cinza e barcos mudos
veremos brilhar o nosso anel e verter rosas da nossa língua.

Alerta! Alerta! Alerta!
Aos que guardam ainda pegadas de pata e aguaceiro,
àquele rapaz que chora porque não sabe a invenção da ponte
ou àquele morto que não tem mais que a cabeça e um sapato,
há que levá-los ao muro onde iguanas e serpes esperam,
onde espera a dentadura de osso,
onde espera a mão mumificada do menino
e a pele do camelo se eriça com um violento calafrio azul.

Não dorme ninguém pelo céu. Ninguém, ninguém.
Não dorme ninguém.
Mas se alguém fecha os olhos,
chicote, meus filhos, chicote!
Haja um panorama de olhos abertos
e amargas feridas incendidas.
Não dorme ninguém pelo mundo. Ninguém, ninguém.
Eu tenho dito.
Não dorme ninguém.
Mas se alguém tem pela noite excesso de musgo nas frontes,
abra as escotilhas para que veja baixo a lua
as copas falsas, o veneno e a caveira dos teatros.
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em Poeta En Nueva York
de Frederico García Lorca
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2 comentários:

josé ferreira disse...

ah e tal e o lorca....

bahhhh!

Daniel Ferreira disse...

E é mesmo, meu grande esteiro: o Lorca, bahhhh! Mas este poema, bateu, acredita. :)