segunda-feira, 8 de março de 2010

SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO

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Anteontem, pois há cenas do caralho, ganhei a minha noite por volta das duas da manhã. Gostaria de ter trazido uma mulher debaixo do braço, travestida de cobertor para a solidão do amanhecer, mas não foi o caso. O que aconteceu, e deve ter sido um dos acontecimentos mais belos (pela causa) que alguma vez tive oportunidade de ouvir, deixou-me incrédulo; traduzindo: a bater muito mal. Do nada, entre uma cerveja e um shot de tequilla (a receita para o esquecimento do costume) chegou um gajo à minha beira e disse-me que eu tinha cara de poeta. Inicialmente, estranhei, formulei umas quantas perguntas interiores rápidas e procurei ver se encontrava no emissor de tal afirmação um indício de propósito que não o simples desabafo inconsequente para o meu problema hemorroidal. Sosseguei, era conhecido de pessoal amigo. Pelo que vim a saber, gosta simplesmente de poesia, de neo-realismo e de José Luís Peixoto, o que não é de todo surpreendente. Mas adiante, dando azo ao meu contentamento. Não é todos os dias que do nada, sem saber ler nem escrever, chega um gajo à tua beira e acerta em cheio: escreves poesia e não te surpreendas com a minha afirmação, já me enganei muitas vezes. Fiquei feliz, acreditem, é daquelas situações em que as pessoas, independentemente dos seus gostos duvidosos, te tocam nas feridas sem magoar, fazendo-te esquecer a magia obscura da solidão. Escusado seria dizer, ao bom jeito de treinador da bola, que, passado uma\duas horas, o persona, já estava cheio de me ouvir. Como de costume, acossado por afirmação de tal calibre, desatei a debitar informação e raminhos de palavras como só um bom porco presunçoso sabe fazer. Acabei, e neste caso ainda bem, como quase sempre, enfiado na cama, sozinho. Da clarabóia, a do costume, a luz do dia a lançar em mim a escuridão.
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