domingo, 7 de março de 2010

HÁ DIAS (E CADA VEZ MAIS) QUE ASSIM NOS MERECEM

TODAS AS MANHÃS, QUANDO LEIO O PERIÓDICO


Assomo ao meu buraco pequenino.
De fora soa o mundo, seus números, sua pressa,
suas fúrias que nos dão sua tunda e seu lamento.
E escuto. Não entendo.


Os homens amarelos, os negros ou os brancos,
a Bolsa, as esquadras, os partidos, a guerra:
longas filas de homens caindo um a um.
Conto-os. Não entendo.


Erguem as bandeiras, os sorrisos, os dentes,
os tanques, a avareza, os cálculos, os ventres
e uma beldade oferece o sexo à violência.
Vejo. Não acredito.


Eu tenho o meu buraco escuro e quentinho.
Se olhar para cima, vejo um pouco de céu.
Posso dormir, comer, sonhar com Deus ou coçar-me.
O resto não entendo.
 

Gabriel Celaya


[roubado numa rua bem iluminada, aqui à direita quem desce] 
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