sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

ISTO SIM, É JORNALISMO





 «Quando a onda rebentou, trazia água, lama, lixo, pedras, paus e um homem aos trambolhões. Não foi um caudal a crescer: foi de repente. A vaga gigante a afunilar pelo beco estreito, como se se abrisse a comporta de uma barragem. Fábio bem viu o homem, a rebolar pela rua dos Açougues, desde a ribeira principal, que corre ao longo da Rua Direita. “Tinha mais de 60 anos, vinha todo embrulhado, eu saltei para aquele lado e estendi-lhe a mão”. Fábio Alexandre Abreu da Silva, 31 anos, agarrou no homem, subtraindo-o à força da corrente, ao mesmo tempo que a lama lhe entrava pela pastelaria Meia Lua, destruindo tudo.

(…)

Fábio pensou rápido. Fechava a porta ou agarrava o homem. Talvez até já viesse morto. Mas ainda assim! Calculou bem o salto. Segurou-lhe o braço e acto contínuo sacou um puxão forte em direcção ao degrau. “Depois esperei uma aberta e atirei-me para aquele lado, com o homem. Ele mal se apanhou de pé desatou a correr. Estava vivo. Desatou a correr por ali”.

Se a ribeira não tivesse transbordado, a Rua dos Açougues nunca ficaria no trajecto das enxurradas. “Junto à cidade, as ribeiras estão demasiado estreitas”, diz Carlos Alberto Diniz do Nascimento, 43 anos. “Nos arredores, onde está a minha casa, quem faz as ribeiras é o poder de Deus. Na cidade, vão construindo muros de cimento, cada vez mais estreitos, para construírem mais casas dos lados”.

Ou seja: se na cidade foi a ambição humana que abriu o caminho da destruição, já ali, no bairro de Santo António, foi o próprio Deus que preparou tudo. Não é um bom sítio, reconhece Carlos Alberto. “Eu sabia que era perigoso. Mas a gente não pode escolher o sítio, não é?”

(…)

O Largo do Pelourinho ainda está alagado e da esplanada de um café apenas emergem os tampos das mesas, onde foi servido um sinistro repasto de pedras e lama. A um nível mais elevado fica a Praça da Autonomia, obra de regime, cercada de água por todos os lados.»


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