quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

ALGUMAS HORAS OUTRAS

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algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes
ácidos de louça, não serão recordadas. ou quanto mais
as recordarmos, mais a ignorância deitará
os corpos no tapume de vidros, para que em torno
se conciliem as vontades singulares, as
particularidades de um impetuoso alarme.
ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos
encolhidos, para que um amplo destine os atravesse.
considerem, por exemplo, o paquete que ao meio-dia
digere as minuciosas palmeiras sobre a
alta insensatez dos aquedutos. ou ainda
a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo
do outro lado das vidraças: azul, não é?
assim estas algumas outras horas: como esquecê-las?






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e ainda o sossego das interrogações não se deixa
facilmente esborratar, ou a qualidade
das tintas, assim no meio do lençol,
o impediu até agora. algumas
são as horas do vasto almofadão translúcido
onde as janelas germinaram, e são
as solenes sardinheiras ardidas
na boca do início. soçobrando a música
produzimos os locais inamovíveis, as persianas
percorridas sobre o papel meticuloso das suas
amenas enseadas. não olhes,
outras algumas horas que a madeira se parte
e os carinhosos garfos se encolhem nas gengivas.






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quem nelas arde mastigando o musgo
fluvial, ou as longas cortinas inundadas,
dificilmente evitará outras incertas mesas
onde dorme. observem como estão cobertas
pela (metáfora da) nuvem sobre o fundo
de actos responsáveis, gracejos gratuitos, animais de
pequeno porte. eles mesmos
se esquecerão, no solene rebordo das horas,
de quem foram, de quem teriam sido
as campânulas inamovíveis, e essas feridas
precocemente supuradas. então outros se cobrem
com (a metáfora das) sedas mais crúeis,
algumas outras horas que adivinham em garfos
naufragados, o silêncio, a secura.






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observem como rapidamente esquecem, mudando de cor
a cada rotação das ventoinhas. e ainda
a imagem é pouco fiel, dada a distância
e o sucessivo afastamento das delicadas
membranas. observem como
se dividem, no instante anterior à queda.
não se encontra explicado o sombrio abcesso
de cólera, ou de timidez, quando as nódoas estalam
ao frio pouco vulgar nesta estação do mês.
ou será isto, e nada mais, o que esquecemos?



Poemas, António Franco Alexandre

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