segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

ESCÁRNIO


«O governador, uma das farsas da impostura universal, era porventura a face mais ridícula desse embuste. Heikal conhecia-o de vista, por tê-lo enxergado muitas vezes, de raspão, na sala de jogos do casino municipal, sempre rodeado dos seus mais entusiastas cortesãos. Estes constituíam uma sinistra assembleia; andavam sempre à volta dele como lacaios, sorrindo gravemente dos dislates que o homem debitava em tom de oráculo. Heikal via-se de tal modo subjugado pela insolente estupidez do homem que acabou por ter por ele uma inegável paixão. Aquele ser atingia um tal grau de trágico disparate que uma pessoa se via obrigada a respeitá-lo. Sozinho, representava de forma magistral a parvoíce dirigente do mundo inteiro. O interesse quase sádico que Heikal mostrava por este espécime chegava a assustá-lo, parecendo-lhe que o homem fora nomeado para governador para sua satisfação pessoal. Não havia dia em que o governador não lhe desse provas, graças às suas iniciativas e palavras públicas, de que só pensava numa coisa: agradar-lhe, oferecendo-lhe com que aguçar o sentido de humor, como se tivesse percebido que alguém na cidade esperava dele, para se divertir, um qualquer acto demente. De tal maneira que o governador nunca faltava à sua vocação de palhaço de feira. Como poderia Heikal não gostar de um homem destes? Matá-lo teria sido blasfémia. Era o que não percebiam aqueles teimosos revolucionários que o combatiam abertamente, permitindo-lhe assim ser levado a sério. Para Heikal, o crime dos poderosos era tão patente que não havia necessidade nenhuma de andar a proclamá-lo em voz alta no meio da rua. Até uma criança o sabia.»  


A Violência e o Escárnio, Albert Cossery 
 

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