terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A Vergonha




Não me lembro ao certo do momento em que tomei conhecimento da existência de Gonçalo M. Tavares, provavelmente - poderia ter quase a certeza - li o seu nome num jornal qualquer quando ainda gastava dinheiro, pelo menos uma vez por semana, nesse tipo de coisa cada vez mais e mais duvidosa. Como tenho um hábito que consiste em anotar no telemóvel tudo o que tem potencial interesse, certo dia (vagueava eu pela fnac) li um livro de poemas dele e fiquei logo com uma bem melhor e pessoal impressão da sua escrita. Pode, à primeira vista, parecer tudo isto muito simples, e até pueril, mas notei ali, não me lembro do nome do livro, que uma grossa e linear ironia, ou melhor, sarcasmo, tenta e consegue roer, de uma forma aparentemente fácil e quase oral, a realidade colectiva que nos rodeia. E sendo eu um particular adepto de todo e qualquer escritor que possua esse tipo de virtude, tratei e consegui, um ano depois, através das mãos do pai de um grande amigo meu, arranjar um livro dele. Um Homem: Klaus Klump é o nome do livro, frases curtas e uma lógica limpa, lúdica,  obscura. Além de ter um fim que define de forma simples, como já foi dito entrelinhas, a natureza humana, traz trechos bombásticos (entre muitos) como o que se seguirá.

«A vergonha não existe na natureza. Os animais sabem a lei: a força, a força; a força. Quem é fraco cai e faz o que o forte quer. A inundação, as chuvas, o mamífero mais pesado e mais rápido e o mamífero pequeno. Os primatas, os répteis, os peixes maiores e os mais minúsculos, a cascata: já viste algum animal cair?, não há a mais breve compaixão entre os animais e a água, o mar engoliu milhares e milhares de cães desde o início do mundo. Não há a mais breve compaixão entre a água e as plantas, entre a terra que desaba e os pequenos animais acabados de nascer. A natureza avança com o que é forte e a cidade avança com o que é forte: qual a dúvida? Queres o quê?
Não há animais injustos, não sejas imbecil. Não há inundações injustas ou desabamentos de maldade. A injustiça não faz parte dos elementos da natureza, um cão sim, e uma árvore e a água enorme, mas a injustiça não. Se a injustiça se fizesse organismo - coisa que pode morrer - então, sim, faria parte da natureza.
Os homens quiseram inserir na natureza coisas inventadas pelos fracos: foram os fracos que inventaram a injustiça para mais tarde poderem inventar a compaixão. Nem a água docil percebe o que é isso de injustiça. Queres ser mais bondoso que uma substância química que se escreve tão simplesmente como isto: H2O? Não sejas imbecil. Olha para os tanques: dispara com eles, ou contra eles. A vida em guerra só tem dois sentidos: com eles ou contra eles. Se não queres morrer beija as botas do mais forte, é isto.»

[Fotografia: Hicham Benohoud, Azemmour, 2007]
     

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